São Paulo - SP

Por enquanto

Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim tão diferente

Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar Que tudo era pra sempre
Sem saber, que o pra sempre, sempre acaba

Foi com essa música da Cássia Eller que eu terminei o dia. Mais um dia (ou menos um, depende do ponto de vista). Juntei minhas coisas, como quem junta os pedaços de algo que se quebrou, celular numa mão, chave do carro na outra, e fui saindo em passos lentos. As palavras vieram, minha boca cantou baixinho, sem que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo. Parei em frente ao elevador, baixei a cabeça e continuei cantando baixinho. Entrei sozinha, desci sozinha, sempre sozinha. E a música quando vem assim é pior que chiclete. Gruda mesmo. Estacionei no mercado, peguei a listinha de meia dúzia de coisas que eu não poderia esquecer de comprar e caminhei lentamente empurrando um carrinho vazio. Pensei nos carrinhos vazios que tantas pessoas empurram todos os dias em suas vidas.

Carrinhos estes que, muitas vezes podem até estar cheios, mas nada do que tem ali foi colocado por quem o está empurrando. Então se tornam vazios de desejos, apesar de lotados de expectativas impostas e frustrações.

Continuei empurrando meu carrinho vazio e parei em frente à banca de flores. Me dei conta de que nunca havia comprado flores pra minha casa. E sabem por quê? Porque elas morrem. Não duram pra sempre. Vou ter que jogá-las fora de qualquer jeito. “plim”. Escutei uma ficha caindo.

Como assim?? Eu NUNCA comprei flores pra minha casa porque elas não duram pra sempre?? E me dei conta, em uma fração de segundo, da minha alma pequena. Fiquei ali parada, diante das flores e diante de mim, tentando entender e encontrar (em vão) em que parte do caminho eu perdi a minha fé. E ainda cantando a música baixinho, lembrei de quando cheguei a acreditar que tudo era pra sempre. Mas o “pra sempre”, sempre acabou e, talvez por isso, hoje eu não consiga mais pensar em outra coisa senão em como será o fim de tudo. Mas realmente, hoje eu sei que alguma coisa aconteceu.

Comprei as flores.

Cheguei em casa e a música ainda não tinha me deixado. Separei um vaso, coloquei água fresca, cortei os caules em diagonal e arrumei um lugar bem lindo pra elas. Por alguns minutos as observei e me deixei ser observada por elas. Me permiti sentir a alegria que elas trouxeram pra minha casa, mesmo sabendo que em breve elas não estarão mais ali. Prometi trocar a água todos os dias, enquanto elas tiverem força, porque pra elas isso é o “pra sempre”. E elas irradiaram luz. Abri um sorriso e não hesitei em fotografar. E me dei conta de como estou perdendo momentos tão lindos e intensos na minha vida. Eu podia estar vivendo rodeada de flores, mas ao invés disso preferi não tê-las, por saber que elas não serão pra sempre. Mas espera aí: eu também não sou pra sempre. Já não sou a mesma de pouco tempo atrás.

Daqui pra frente quero minha vida (e minha casa) cheia de flores. Tá tudo assim tão diferente. E quero que seja diferente sempre.

Um dia de cada vez. Sendo feliz em cada um deles (ou pelo menos tentando). Porque cada dia é especial e único. Assim como são as flores.

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